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Capões e Cordilheiras — Ilhas de Vegetação no Pantanal

Descubra a ecologia dos capões e cordilheiras, as formações elevadas que servem de refúgio para a fauna do Pantanal durante as cheias sazonais.

Redação Pantanal Oficial
31 de março de 2026
Capões e Cordilheiras — Ilhas de Vegetação no Pantanal
Capões e Cordilheiras — Ilhas de Vegetação no Pantanal

Introdução

O Pantanal, reconhecido como a maior planície de inundação contínua do planeta, apresenta uma paisagem dinâmica e heterogênea, moldada pelo ciclo anual de cheias e secas. No coração desse bioma, destacam-se formações vegetais elevadas conhecidas como capões e cordilheiras. Estas estruturas funcionam como verdadeiras “ilhas de biodiversidade”, permanecendo emersas mesmo durante os períodos de inundação severa, quando a maior parte da planície é coberta pelas águas dos rios Paraguai, Cuiabá e seus afluentes.

Essas formações não são apenas acidentes geográficos, mas componentes vitais para a sobrevivência da fauna pantaneira. Enquanto as áreas baixas se transformam em vastos espelhos d’água, os capões e as cordilheiras oferecem refúgio seco, locais de nidificação e fontes de alimento para uma miríade de espécies. A ecologia dessas ilhas de vegetação é complexa, abrigando fitofisionomias que variam desde o cerrado sensu stricto até florestas densas, conhecidas como cerradões, criando um mosaico ambiental que define a identidade biológica da região.

O Que São Capões e Cordilheiras?

Os capões de mato são manchas de vegetação arbórea ou arbustiva que ocorrem de forma isolada em meio aos campos inundáveis. Geralmente apresentam formato circular ou elíptico e ocupam áreas levemente elevadas, variando de alguns metros quadrados a vários hectares. Sua origem está frequentemente associada a processos de sedimentação ou à atividade de organismos engenheiros, como cupins, que criam microelevações (murundus) onde as sementes de árvores podem germinar sem o risco de afogamento durante as cheias.

As cordilheiras, por outro lado, são formações lineares e alongadas, que podem se estender por quilômetros na paisagem pantaneira. Elas representam antigos diques marginais de rios que mudaram seu curso ao longo de milênios (paleocanais). Com elevações que variam de 1 a 3 metros acima do nível médio da planície, as cordilheiras raramente são inundadas, permitindo o desenvolvimento de uma vegetação florestal mais robusta e perene. Ambas as formações são essenciais para a conectividade da paisagem, servindo como corredores ecológicos para animais terrestres.

Características Principais

A principal característica dessas formações é a sua imunidade relativa às inundações. Enquanto o entorno pode permanecer sob a água por até seis meses ao ano, o solo dos capões e cordilheiras mantém-se drenado, o que possibilita a existência de espécies vegetais que não toleram o encharcamento prolongado. A composição do solo nessas áreas costuma ser mais rica em matéria orgânica e nutrientes do que os campos adjacentes, devido ao acúmulo de serapilheira e à deposição de dejetos pelos animais que ali se refugiam.

Aspecto Descrição
Topografia Elevações de 1 a 3 metros acima do nível da planície inundável.
Fisionomia Vegetal Mosaico de Cerradão, Mata Seca e Cerrado sensu stricto.
Solo Solos mais profundos, bem drenados e com maior teor de matéria orgânica.
Hidrologia Áreas que raramente sofrem inundação, mesmo no pico da cheia.
Formato Capões são circulares/isolados; Cordilheiras são lineares/extensas.
Origem Paleodiques (cordilheiras) ou microelevações/murundus (capões).

Espécies Envolvidas / Fauna Associada

A fauna associada aos capões e cordilheiras é extremamente diversa, abrangendo desde grandes mamíferos até aves especialistas. Durante a estação das cheias, a densidade populacional nessas ilhas aumenta drasticamente, pois animais como a onça-pintada (Panthera onca), o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) e o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) buscam abrigo e locais secos para descanso. A interação entre as espécies é intensa, tornando esses locais pontos críticos para a observação da vida selvagem e para a manutenção das cadeias alimentares.

Espécie Papel / Característica
Onça-pintada (Panthera onca) Utiliza as cordilheiras como rotas de deslocamento e áreas de caça.
Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) Nidifica em cavidades de árvores grandes (como o Manduvi) presentes nos capões.
Acuri (Attalea phalerata) Palmeira fundamental que forma o “cinturão de acuris” ao redor dos capões.
Queixada (Tayassu pecari) Forma grandes grupos que buscam refúgio e alimento nos cerradões das cordilheiras.
Bugio-do-pantanal (Alouatta caraya) Primata que habita o dossel das florestas de cordilheira, alimentando-se de folhas e frutos.
Manduvi (Sterculia apetala) Árvore de grande porte essencial para a reprodução de diversas aves.

Dinâmica e Processos

A dinâmica dos capões e cordilheiras é regida pelo pulso de inundação. Durante a seca, os animais dispersam-se pelos campos em busca de pastagens e água remanescente nas baías. Com a chegada das chuvas e a subida do nível dos rios, ocorre um processo de compressão espacial: a fauna terrestre é forçada a migrar para as áreas elevadas. Esse movimento sazonal cria uma pressão de pastejo e predação concentrada nos capões, o que influencia a regeneração da vegetação e a ciclagem de nutrientes no solo.

Outro processo fundamental é a zoocoria (dispersão de sementes por animais). Muitas árvores frutíferas dependem de aves e mamíferos que se abrigam nas ilhas de vegetação para espalhar suas sementes. O “cinturão de acuris”, por exemplo, é mantido em grande parte pela ação de roedores e aves que transportam os frutos da palmeira. Além disso, a decomposição da matéria orgânica trazida pelos animais (fezes, carcaças) enriquece o solo, garantindo que essas formações mantenham sua produtividade biológica superior à dos campos inundáveis.

Impactos no Ecossistema

Os capões e cordilheiras atuam como reguladores da biodiversidade regional. Sem essas elevações, a fauna terrestre do Pantanal seria dizimada durante as grandes cheias plurianuais. Elas funcionam como “bancos de germoplasma” naturais, preservando espécies de plantas que não sobreviveriam em áreas alagadas. Além disso, a presença dessas matas influencia o microclima local, reduzindo a temperatura do solo e aumentando a umidade relativa do ar através da evapotranspiração, o que beneficia espécies sensíveis ao calor extremo.

A fragmentação ou degradação dessas áreas tem impactos em cascata. A remoção da vegetação nativa para a formação de pastagens artificiais ou a introdução de gramíneas exóticas compromete a função de refúgio. Quando uma cordilheira perde sua cobertura florestal, ela deixa de servir como corredor seguro para grandes predadores, aumentando os conflitos entre humanos e vida selvagem, já que os animais são forçados a atravessar áreas abertas e vulneráveis.

Adaptações da Fauna e Flora

As plantas que habitam os capões e cordilheiras desenvolveram adaptações para lidar com a sazonalidade, embora sua principal estratégia seja a exclusão do estresse hídrico pela elevação topográfica. Muitas árvores possuem raízes profundas para acessar o lençol freático durante a seca severa. Espécies como o paratudo (Tabebuia aurea) apresentam casca grossa e corticosa, uma adaptação ao fogo que ocasionalmente atinge essas áreas no final da estação seca.

A fauna, por sua vez, exibe adaptações comportamentais notáveis. Muitos animais possuem um “mapa mental” das áreas elevadas e iniciam a migração para as cordilheiras assim que percebem os primeiros sinais da subida das águas. Aves como o tuiuiú (Jabiru mycteria) constroem seus ninhos monumentais no topo das árvores mais altas das cordilheiras, garantindo que seus filhotes fiquem a salvo tanto de predadores terrestres quanto da inundação. A capacidade de nadar curtas distâncias entre um capão e outro também é uma adaptação comum entre mamíferos como o cervo-do-pantanal e a capivara.

Importância para a Conservação

A conservação dos capões e cordilheiras é prioritária para a manutenção da integridade ecológica do Pantanal. Como são as áreas preferidas para a instalação de sedes de fazendas e para o manejo do gado durante as cheias, essas formações sofrem uma pressão antrópica desproporcional ao seu tamanho. A proteção legal dessas “ilhas” é fundamental, pois sua perda significa a destruição dos últimos refúgios seguros para espécies ameaçadas de extinção.

Estratégias de conservação devem focar na manutenção da conectividade entre as cordilheiras e na restauração dos capões degradados. O turismo sustentável de observação de vida selvagem, que utiliza essas áreas como pontos de avistamento, pode ser um aliado econômico importante, demonstrando que a floresta em pé e a fauna preservada possuem um valor superior ao da conversão da terra para pastagem extensiva.

Curiosidades

  • Algumas cordilheiras no Pantanal são tão antigas que preservam vestígios arqueológicos de povos indígenas pré-colombianos, como os Guató, que as utilizavam como aterros habitacionais.
  • O termo “capão” vem do tupi ka’a paũ, que significa literalmente “ilha de mato” ou “mato isolado”.
  • O acuri, palmeira onipresente nos capões, é considerado o “superalimento” do Pantanal, sustentando desde araras até porcos-monteiros.
  • Existem capões que se formam sobre grandes cupinzeiros mortos, onde o acúmulo de terra e nutrientes permite o crescimento de árvores em meio ao campo alagado.
  • Durante as cheias extremas, é comum ver onças-pintadas e suas presas compartilhando a mesma cordilheira em uma trégua forçada pela falta de espaço seco.

Referências

[1] POTT, A.; POTT, V. J. (1994). Plantas do Pantanal. Embrapa-CPAP. [2] JUNK, W. J. et al. (2006). The Pantanal: Ecology, biodiversity and sustainable management of a large neotropical wetland. Pensoft Publishers. [3] MAMEDE, S.; ALHO, C. J. R. (2006). Response of wild mammals to seasonal flooding in the Pantanal. Brazilian Journal of Biology, v. 66, n. 4, p. 991-1002. [4] HARRIS, M. B. et al. (2005). Safeguarding the Pantanal: Priorities and actions for conservation. Conservation Biology, v. 19, n. 3, p. 714-720. [5] SCREMIN-DIAS, E. et al. (2000). Flora e vegetação do Pantanal: estado atual do conhecimento. In: Simpósio sobre Recursos Naturais e Socioeconômicos do Pantanal, 3., 2000, Corumbá. Anais… Embrapa Pantanal.

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