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Hydrochoerus hydrochaeris (Capivara)

Conheça a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), o maior roedor do mundo. Descubra sua ecologia, comportamento social e importância no ecossistema do Pantanal.

Redação Pantanal Oficial
14 de setembro de 2023
Hydrochoerus hydrochaeris (Capivara)
Hydrochoerus hydrochaeris (Capivara)

Hydrochoerus hydrochaeris (Capivara)

Introdução

A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) é amplamente reconhecida como o maior roedor vivente do mundo, sendo um dos símbolos mais emblemáticos da fauna sul-americana e, em particular, do Pantanal brasileiro. Este mamífero semi-aquático pertence à família Caviidae e ao gênero Hydrochoerus, apresentando adaptações evolutivas notáveis que lhe permitem transitar com extrema eficiência entre os meios terrestre e aquático. No ecossistema pantaneiro, a capivara desempenha um papel ecológico central, atuando tanto como um importante herbívoro que molda a vegetação local quanto como uma presa fundamental para os grandes predadores da região, como a onça-pintada e o jacaré-do-pantanal [1] [2].

A abundância da espécie no Pantanal está intrinsecamente ligada ao regime de pulsos de inundação, que cria um mosaico de habitats ideais compostos por campos inundáveis, vazantes e matas de galeria. Sua estrutura social complexa, caracterizada por grupos familiares coesos e uma hierarquia bem definida, permite que a espécie prospere mesmo em ambientes com alta pressão de predação. Além de sua relevância biológica, a capivara possui uma importância cultural e econômica histórica, sendo objeto de estudos científicos profundos sobre manejo de fauna silvestre e conservação da biodiversidade em áreas úmidas [3].

Classificação Científica

Categoria Classificação
Reino Animalia
Filo Chordata
Classe Mammalia
Ordem Rodentia
Família Caviidae
Gênero Hydrochoerus
Espécie Hydrochoerus hydrochaeris
Nome popular Capivara, carpincho, capybara

Descrição

A morfologia da capivara é um exemplo clássico de especialização para a vida em áreas úmidas. Seu corpo é robusto e pesado, com uma cabeça grande e quadrada em relação ao tronco. Uma das características mais distintas é a disposição dos órgãos sensoriais: os olhos, as orelhas e as narinas estão localizados na parte superior da cabeça, permitindo que o animal permaneça quase totalmente submerso enquanto mantém a vigilância e a respiração, uma adaptação análoga à dos hipopótamos e jacarés [4]. A pelagem é composta por cerdas longas, grossas e esparsas, geralmente de coloração marrom-avermelhada ou acinzentada, que secam rapidamente após o animal sair da água.

Internamente, a capivara possui um sistema digestivo altamente especializado para o processamento de fibras vegetais resistentes. Como todos os roedores, seus dentes incisivos são de crescimento contínuo (eipsodontes), compensando o desgaste severo causado pela mastigação constante de gramíneas e plantas aquáticas. Seus membros são curtos, sendo os posteriores ligeiramente mais longos que os anteriores, e os pés apresentam membranas interdigitais rudimentares que auxiliam na natação, embora não sejam nadadeiras completas. Abaixo, apresentam-se os dados físicos médios da espécie no ambiente selvagem:

Característica Valor Médio (Adultos)
Comprimento Total 1,06 a 1,34 metros
Altura na Cernelha 50 a 62 centímetros
Peso Corporal 35 a 66 quilogramas
Longevidade (Natureza) 6 a 10 anos
Período de Atividade Crepuscular e Noturno

Distribuição e Habitat

A distribuição geográfica da Hydrochoerus hydrochaeris abrange quase toda a América do Sul, estendendo-se do leste do Panamá até o norte da Argentina, sempre associada a corpos d’água permanentes. No Brasil, a espécie ocorre em todos os biomas, mas é no Pantanal que atinge algumas de suas maiores densidades populacionais. A planície pantaneira oferece o gradiente perfeito de recursos: água para termorregulação, refúgio contra predadores e acasalamento, além de vastas áreas de pastagem ricas em nutrientes durante as diferentes fases do ciclo hidrológico [5].

No contexto específico do Pantanal, o uso do habitat pela capivara é dinâmico e sazonal. Durante a estação das cheias, os grupos tendem a se concentrar em áreas mais elevadas, conhecidas como cordilheiras e capões, onde a vegetação arbórea oferece abrigo. Com a retração das águas na estação seca, as capivaras expandem sua área de vida para as planícies de inundação recém-expostas, onde a rebrota das gramíneas fornece alimento de alta qualidade. Essa plasticidade no uso do espaço é fundamental para a sobrevivência da espécie em um ambiente tão variável, permitindo que ela mantenha populações estáveis mesmo diante de flutuações climáticas extremas [1] [6].

Comportamento

O comportamento social da capivara é um dos aspectos mais fascinantes de sua biologia. Trata-se de uma espécie altamente gregária, vivendo em grupos familiares estruturados que variam de 10 a 30 indivíduos, embora em períodos de seca extrema no Pantanal, grupos maiores de até 100 animais possam ser observados em torno de corpos d’água remanescentes. A estrutura social é centrada em um macho dominante, que mantém o controle sobre um harém de fêmeas e seus filhotes, além de alguns machos subordinados que ocupam a periferia do grupo. O macho dominante defende ativamente seu território contra intrusos, utilizando glândulas de cheiro localizadas no topo do focinho (glândula morrillo) para marcar a vegetação e sinalizar sua presença [7] [8].

A comunicação entre os membros do grupo é rica e variada, envolvendo sinais visuais, olfativos e, principalmente, acústicos. As capivaras emitem uma série de vocalizações distintas, como assobios de contato, grunhidos de submissão e um latido de alerta curto e seco, que serve para avisar o grupo sobre a aproximação de predadores. Quando ameaçadas, as capivaras correm em direção à água, onde são extremamente ágeis e podem permanecer submersas por até cinco minutos para escapar de ataques terrestres. Além disso, o comportamento de vigilância é compartilhado entre os membros do grupo, permitindo que alguns indivíduos se alimentem enquanto outros monitoram o ambiente, uma estratégia clássica de redução de risco de predação em mamíferos sociais [9].

Alimentação / Nutrição

A capivara é um herbívoro pastador especializado, cuja dieta no Pantanal é composta predominantemente por gramíneas (Poaceae) e plantas aquáticas. Sua estratégia alimentar é classificada como seletiva, preferindo espécies vegetais com alto teor proteico e baixa concentração de fibras indigestas, embora essa seletividade diminua durante a estação seca, quando a disponibilidade de recursos é menor. No Pantanal, as capivaras consomem uma grande variedade de espécies, incluindo o aguapé (Eichhornia spp.) e diversas gramíneas de áreas inundáveis que brotam após a retração das águas [10].

Uma característica nutricional única da capivara é a prática da coprofagia, especificamente a ingestão de cecotrofos (fezes moles ricas em nutrientes). Esse comportamento permite que o animal maximize a extração de proteínas e vitaminas produzidas pela microflora bacteriana no ceco, um órgão digestivo altamente desenvolvido. Através da redigestão, a capivara consegue sobreviver em dietas que seriam nutricionalmente insuficientes para outros herbivoro de porte semelhante. Abaixo, detalha-se a composição típica da dieta da capivara no ecossistema pantaneiro:

Tipo de Alimento Importância na Dieta
Gramíneas (Poaceae) Alta
Plantas Aquáticas (Aguapés) Alta
Ciperáceas (Sedges) Média
Cascas de Árvores Baixa (Sazonal)
Frutos Caídos Baixa

Reprodução

A reprodução da capivara no Pantanal ocorre ao longo de todo o ano, embora haja picos de nascimento que coincidem com o início da estação chuvosa, quando a oferta de alimento de alta qualidade é máxima. O acasalamento ocorre quase exclusivamente na água, onde o macho dominante persegue a fêmea em águas rasas. O período de gestação dura entre 120 e 150 dias, resultando em ninhadas que variam de um a oito filhotes, com uma média de quatro por parto. As fêmeas são poliéstricas e podem ter até duas ninhadas por ano em condições ambientais favoráveis [11] [12].

Os filhotes de capivara são extremamente precoces (nidífugos), nascendo com os olhos abertos, pelagem completa e dentição funcional. Poucas horas após o nascimento, já são capazes de caminhar, nadar e até mesmo ingerir pequenas quantidades de grama, embora continuem a mamar por cerca de três a quatro meses. Um aspecto notável do cuidado parental na espécie é a amamentação comunitária: as fêmeas do grupo frequentemente permitem que filhotes de outras fêmeas mamem, o que aumenta as chances de sobrevivência da prole e fortalece os laços sociais do grupo. Essa cooperação é vital no Pantanal, onde a taxa de predação sobre os jovens é elevada devido à presença constante de jacarés e aves de rapina [13].

Importância Ecológica

A capivara desempenha um papel fundamental na manutenção da integridade ecológica do Pantanal. Como um dos maiores herbívoros da região, ela atua como uma “engenheira de ecossistema”, influenciando a composição e a estrutura da vegetação local através do pastejo seletivo. Ao consumir gramíneas e plantas aquáticas, as capivaras ajudam a manter as áreas de pastagem abertas e promovem a ciclagem de nutrientes, transformando a biomassa vegetal em matéria orgânica que enriquece o solo e a água. Além disso, a capivara é uma importante dispersora de sementes de diversas espécies vegetais, que passam pelo seu trato digestivo e são depositadas em novos locais através das fezes [14] [15].

No entanto, sua maior relevância ecológica reside na sua posição na teia trófica pantaneira. A capivara é a principal presa da onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das Américas, e sua abundância sustenta as altas densidades populacionais desse predador no Pantanal. Além da onça, outros predadores de topo, como a sucuri-amarela (Eunectes notaeus) e o jacaré-do-pantanal (Caiman yacare), dependem fortemente da capivara como fonte de proteína, especialmente os indivíduos jovens e subadultos. Sem a presença massiva das capivaras, a estrutura das comunidades de predadores no Pantanal seria drasticamente alterada, demonstrando a interdependência vital entre as espécies nesse bioma [16].

Status de Conservação

Atualmente, a capivara é classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como uma espécie de “Pouco Preocupante” (Least Concern), devido à sua ampla distribuição geográfica e à estabilidade de suas populações em grande parte da América do Sul. No Pantanal, a espécie é extremamente abundante e não enfrenta riscos imediatos de extinção. No entanto, isso não significa que a espécie esteja isenta de ameaças locais. A caça ilegal para consumo de carne e uso do couro, embora proibida no Brasil, ainda ocorre em algumas regiões remotas, e a perda de habitat devido à expansão da agropecuária intensiva pode fragmentar populações em áreas periféricas do bioma [17] [18].

Outro fator de preocupação crescente é a saúde pública, especificamente a relação entre as capivaras e a febre maculosa brasileira, causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida pelo carrapato-estrela (Amblyomma sculptum). Embora no Pantanal profundo o risco de surtos seja menor devido ao equilíbrio ecológico e à menor densidade humana, em áreas de transição e ambientes antrópicos, a presença de capivaras pode ser vista como um problema de saúde pública. Programas de manejo sustentável e monitoramento sanitário são essenciais para garantir a coexistência harmoniosa entre as populações de capivaras e as atividades humanas no Pantanal, preservando a integridade biológica da espécie [19].

Curiosidades

  • Maior Roedor do Mundo: A capivara detém o título de maior roedor vivente da Terra, superando em tamanho e peso espécies como o castor e o porco-espinho.
  • Dentes Infinitos: Seus dentes incisivos nunca param de crescer, podendo atingir vários centímetros se não forem desgastados pela mastigação constante de fibras vegetais duras.
  • Mergulhadora Experiente: Capivaras podem permanecer submersas por até cinco minutos e são capazes de dormir na água, mantendo apenas o nariz acima da superfície para respirar.
  • Etimologia Tupi: O nome “capivara” deriva do termo tupi kapi’wara, que significa literalmente “comedor de capim” (ka’api = capim + uara = comedor).
  • Amamentação Coletiva: É comum observar fêmeas de capivara amamentando filhotes que não são seus, um comportamento cooperativo raro entre mamíferos que aumenta a sobrevivência da prole do grupo.

Referências

[1] ALHO, C. J. R.; CAMPOS, Z. M. S.; GONÇALVES, H. C. (1987). Ecologia de capivara (Hydrochaeris hydrochaeris) do Pantanal: I. Habitats, densidades e tamanho de grupo. Revista Brasileira de Biologia, v. 47, n. 4, p. 511-517. [2] SCHALLER, G. B. (1967). The Deer and the Tiger. University of Chicago Press. [3] MOREIRA, J. R.; MACDONALD, D. W. (1997). Capybara biology and management: a review. In: Wildlife Conservation and Management in Brazil. [4] LORD, R. D. (2007). Mammals of South America. Johns Hopkins University Press. [5] EMBRAPA PANTANAL. (2007). Criação e manejo de capivaras. Documentos 102. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/88240/1/Criacaoemanejo.pdf [6] CAMPOS, Z.; MOURÃO, G. (2006). Capivaras no Pantanal. Embrapa Pantanal. [7] HERRERA, E. A.; MACDONALD, D. W. (1987). Group size and the social system of the capybara, Hydrochaeris hydrochaeris. Journal of Mammalogy, v. 68, n. 4, p. 823-830. [8] MACDONALD, D. W. (1981). The capybara: giant rodent of Brazil. National Geographic. [9] YABER, M. C.; HERRERA, E. A. (1994). Vigilance, group size and social status in capybaras. Animal Behaviour, v. 48, n. 6, p. 1301-1307. [10] BARRETO, G. R.; HERRERA, E. A. (1998). Foraging patterns of capybaras in a seasonally flooded savanna of Venezuela. Journal of Tropical Ecology, v. 14, n. 1, p. 87-108. [11] OJASTI, J. (1973). La capibara (Hydrochoerus hydrochaeris) - Poblaciones y manejo en Venezuela. [12] JORGE, W. (2010). Biologia e Manejo de Capivaras. Conhecer. [13] VERDADE, L. M.; FERRAZ, K. M. P. M. B. (2006). Capybaras in an anthropogenic habitat in Southeastern Brazil. Brazilian Journal of Biology, v. 66, n. 1, p. 203-208. [14] ALHO, C. J. R. (2008). The Pantanal of Brazil. [15] MOURÃO, G. et al. (2010). Ecologia de populações de capivaras no Pantanal. Embrapa. [16] AZEVEDO, F. C. C.; MURRAY, D. L. (2007). Spatial organization and food habits of jaguars (Panthera onca) in a floodplain forest. Biological Conservation, v. 137, n. 3, p. 391-402. [17] IUCN. (2016). Hydrochoerus hydrochaeris. The IUCN Red List of Threatened Species. [18] MMA. (2022). Lista Nacional de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. [19] LABRUNA, M. B. (2009). Ecology of Rickettsia rickettsii in South America. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1166, n. 1, p. 156-166.

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