Introdução
O Pecari tajacu, popularmente conhecido como cateto, caititu ou porco-do-mato, é um dos mamíferos mais emblemáticos e adaptáveis da fauna neotropical. Pertencente à família Tayassuidae, esta espécie desempenha um papel ecológico fundamental no ecossistema do Pantanal, atuando como um importante dispersor de sementes e engenheiro ambiental. Diferente dos suídeos introduzidos, como o javali, o cateto é uma espécie nativa que evoluiu em estreita relação com as dinâmicas sazonais das planícies inundáveis brasileiras.
Classificação Científica
| Reino | Animalia |
| Filo | Chordata |
| Classe | Mammalia |
| Ordem | Artiodactyla |
| Família | Tayassuidae |
| Gênero | Pecari |
| Espécie | Pecari tajacu |
| Nome popular | Cateto, Caititu |
No Pantanal, o cateto é frequentemente avistado em grupos sociais coesos, cruzando cordilheiras e capões de mata. Sua presença é um indicador de saúde ambiental, pois sua dieta onívora e seus hábitos de forrageamento influenciam diretamente a estrutura da vegetação local. Além de sua importância biológica, o cateto é uma peça-chave na cadeia alimentar, servindo como uma das principais presas para grandes felinos, como a onça-pintada, estabelecendo um equilíbrio vital na biodiversidade da região.
Apesar de ser classificado como "Pouco Preocupante" (LC) pela IUCN, o cateto enfrenta desafios crescentes devido à fragmentação de habitats e à pressão da caça em certas áreas. No contexto pantaneiro, a conservação desta espécie está intrinsecamente ligada à preservação dos corredores ecológicos e à manutenção do regime hidrológico do rio Paraguai, que dita o ritmo de vida de toda a biota local.
Descrição Física
O cateto é o menor representante da família Tayassuidae no Brasil, apresentando um porte robusto, porém compacto. Um indivíduo adulto mede entre 84 e 106 centímetros de comprimento, com uma altura na cernelha variando de 30 a 50 centímetros. O peso médio oscila entre 15 e 30 quilogramas, o que o torna significativamente menor e mais ágil que seu parente próximo, o queixada (Tayassu pecari).
A característica morfológica mais distintiva da espécie, que lhe confere o nome em inglês "collared peccary", é uma faixa de pelos claros, quase brancos, que circunda a região do pescoço e ombros, assemelhando-se a um colar. Sua pelagem geral é densa e eriçada, com uma coloração que varia do cinza-escuro ao castanho-acinzentado, proporcionando uma excelente camuflagem nas sombras das matas pantaneiras. O focinho é longo e termina em um disco cartilaginoso móvel, ideal para fuçar o solo em busca de alimento.
Diferente dos porcos domésticos, os catetos possuem caninos superiores que apontam para baixo, e não para fora ou para cima. Outra característica biológica notável é a presença de uma glândula dorsal, localizada cerca de 15 centímetros acima da cauda vestigial. Esta glândula secreta uma substância odorífera forte e característica, utilizada para a marcação territorial e para o reconhecimento mútuo entre os membros do grupo, o que lhes rendeu o apelido de "porcos-de-cheiro" em algumas regiões.
Habitat e Distribuição no Pantanal
O cateto possui uma das distribuições geográficas mais amplas entre os ungulados das Américas, ocorrendo desde o sudoeste dos Estados Unidos até o norte da Argentina. No Brasil, está presente em todos os biomas, mas encontra no Pantanal um de seus refúgios mais produtivos. Sua adaptabilidade permite que ocupe uma grande variedade de fitofisionomias dentro da planície pantaneira, demonstrando preferência por áreas que oferecem cobertura vegetal densa e proximidade com fontes de água.
Dentro do mosaico pantaneiro, os catetos são comumente encontrados em cordilheiras (áreas levemente elevadas que não inundam), capões de mata e matas de galeria ao longo dos rios. Durante o período de cheia, quando o pulso de inundação eleva o nível das águas, os grupos tendem a se concentrar nas partes mais altas do terreno, utilizando as matas secas como abrigo e fonte de alimento. Já na estação seca, eles expandem sua área de vida, aventurando-se por campos abertos e bordas de vazantes.
A distribuição da espécie no Pantanal é influenciada pela disponibilidade de recursos alimentares e pela presença de competidores. Observa-se que, em áreas com alta densidade de queixadas, os catetos podem ocorrer em números reduzidos, ocupando nichos ligeiramente diferentes para evitar a competição direta. A facilidade de observação desta espécie ao longo da rodovia Transpantaneira tornou-a um dos alvos favoritos de fotógrafos de natureza e turistas que visitam a região.
Comportamento
O comportamento social é uma das facetas mais complexas da biologia do cateto. Eles são animais extremamente gregários, vivendo em grupos familiares que geralmente variam de 5 a 15 indivíduos, embora grupos maiores de até 50 animais possam ser registrados em condições ideais. A coesão do grupo é mantida através de sinais olfativos e uma rica gama de vocalizações, que incluem estalidos de dentes (usados como aviso de perigo ou agressão) e grunhidos baixos para manter o contato durante o deslocamento na mata fechada.
Diferente de muitos outros mamíferos sociais, os grupos de catetos apresentam uma hierarquia linear menos rígida, e a cooperação é a norma. Um comportamento comum e fascinante é a "esfregação mútua", onde dois indivíduos se posicionam lado a lado, em direções opostas, e esfregam suas cabeças na glândula dorsal um do outro. Este ritual não apenas fortalece os laços sociais, mas também garante que todos os membros do grupo compartilhem um odor comum, facilitando a identificação de intrusos.
Quanto ao padrão de atividade, o cateto é predominantemente crepuscular e diurno no Pantanal, com picos de movimentação nas primeiras horas da manhã e no final da tarde. No entanto, em áreas com altas temperaturas ou forte pressão antrópica, eles podem adotar hábitos mais noturnos. Durante as horas mais quentes do dia, o grupo costuma repousar em locais sombreados, frequentemente utilizando buracos no solo, troncos ocos ou depressões sob raízes de grandes árvores para se proteger do calor intenso e de predadores.
Alimentação
O cateto é classificado como um onívoro generalista, possuindo uma dieta extremamente plástica que se ajusta à sazonalidade do Pantanal. A base de sua alimentação é composta por frutos, sementes, raízes, tubérculos e bulbos. No entanto, eles não hesitam em complementar sua dieta com proteína animal, consumindo insetos, pequenos répteis, anfíbios e, ocasionalmente, ovos de aves que nidificam no solo.
No ecossistema pantaneiro, os frutos de palmeiras como o acuri (Attalea phalerata) e a bocaiuva (Acrocomia aculeata) são recursos vitais. Ao consumir esses frutos, os catetos muitas vezes ingerem as sementes e as transportam por longas distâncias antes de defecá-las, atuando como agentes cruciais de dispersão e regeneração florestal. Sua capacidade de digerir plantas com altos teores de fibras e compostos secundários permite que sobrevivam em períodos de escassez alimentar, quando recorrem ao consumo de cactos e cascas de árvores.
O papel ecológico do cateto vai além da dispersão de sementes. Ao fuçar o solo em busca de raízes e invertebrados, eles promovem a aeração da terra e a ciclagem de nutrientes, facilitando a infiltração de água e o crescimento de novas plantas. Além disso, ao forragear em grupos, eles criam trilhas na vegetação densa que são utilizadas por outras espécies menores, como roedores e pequenos carnívoros, funcionando como verdadeiros facilitadores da mobilidade na fauna silvestre.
Reprodução
A estratégia reprodutiva do cateto é caracterizada por uma alta eficiência e falta de uma sazonalidade estrita, o que significa que podem se reproduzir durante todo o ano, dependendo da disponibilidade de recursos. No Pantanal, embora os nascimentos ocorram em qualquer mês, observa-se uma frequência ligeiramente maior de partos coincidindo com o início da estação chuvosa, quando a oferta de frutos e brotos verdes é mais abundante.
O período de gestação dura aproximadamente 145 dias (cerca de cinco meses). As fêmeas geralmente dão à luz a dois filhotes por ninhada, embora o número possa variar de um a quatro. Os recém-nascidos são precociais, o que significa que nascem com os olhos abertos e são capazes de caminhar e seguir o grupo poucas horas após o nascimento. A pelagem dos filhotes é inicialmente mais clara e amarelada, com uma listra escura ao longo do dorso, perdendo essa característica à medida que amadurecem.
O cuidado parental é compartilhado de forma indireta pelo grupo, que oferece proteção coletiva contra predadores. O desmame ocorre por volta das seis a oito semanas de vida, mas os jovens permanecem integrados ao grupo familiar por muito tempo, aprendendo as rotas de forrageamento e os comportamentos sociais necessários para a sobrevivência. A maturidade sexual é atingida precocemente, por volta dos 8 a 12 meses para as fêmeas e um pouco mais tarde para os machos, garantindo uma rápida taxa de renovação populacional.
Estado de Conservação
Globalmente, o Pecari tajacu é classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como uma espécie de estado "Pouco Preocupante" (Least Concern). No Brasil, o ICMBio mantém a mesma classificação em sua lista nacional de espécies ameaçadas. Esta estabilidade deve-se à grande plasticidade ecológica da espécie e à sua ampla área de ocorrência. No entanto, essa classificação geral pode mascarar declínios populacionais severos em níveis regionais, especialmente na Mata Atlântica e em partes do Cerrado.
No Pantanal, a população de catetos é considerada saudável, mas não está isenta de ameaças. As principais pressões incluem a perda de habitat devido à conversão de matas nativas em pastagens exóticas e a ocorrência de incêndios florestais de grandes proporções, que destroem áreas de refúgio e fontes de alimento. Além disso, a caça de subsistência e a caça esportiva ilegal ainda ocorrem em diversas regiões, impactando a estrutura social dos grupos. Outro fator de preocupação é a competição e a transmissão de doenças por suídeos invasores, como o javaporco, que competem pelos mesmos recursos e podem introduzir patógenos na fauna nativa.
A conservação do cateto no Pantanal depende da manutenção da integridade das áreas de floresta e da conectividade entre as propriedades rurais. Iniciativas de ecoturismo e pesquisa científica, como as desenvolvidas em fazendas ao longo do rio Paraguai, têm demonstrado que a valorização da fauna viva pode ser uma alternativa econômica viável à caça, promovendo a coexistência entre as atividades produtivas e a preservação da biodiversidade.
Curiosidades
Uma das curiosidades mais interessantes sobre o cateto é a sua relação com a cultura local e o folclore pantaneiro. Muitas vezes confundido com o queixada, o cateto é distinguido pelos pantaneiros pelo seu comportamento menos agressivo e pelo seu odor característico. Na culinária tradicional de algumas comunidades, embora a caça seja proibida, o cateto historicamente foi uma fonte de proteína, sendo sua carne considerada mais apreciada que a do queixada por ser menos "forte" quando a glândula dorsal é removida corretamente logo após o abate.
No âmbito do ecoturismo, o cateto é um dos animais mais "fotogênicos" do Pantanal. Devido ao seu hábito de frequentar as mesmas áreas de descanso e alimentação, guias experientes conseguem localizar grupos com relativa facilidade. É comum vê-los interagindo com outras espécies; não raramente, são observados próximos a grupos de capivaras ou sob árvores onde macacos se alimentam, aproveitando os frutos que caem no chão.
Cientificamente, o cateto é um exemplo notável de evolução convergente. Embora se pareçam com porcos, eles divergiram dos suídeos há mais de 30 milhões de anos. Uma característica única entre os pecarídeos é o seu estômago complexo, dividido em três compartimentos, que permite uma fermentação bacteriana eficiente de materiais vegetais resistentes, uma adaptação que os coloca em uma posição evolutiva intermediária entre os não-ruminantes e os ruminantes verdadeiros.
Referências
[1] IUCN. (2016). *Pecari tajacu*. The IUCN Red List of Threatened Species. Disponível em: https://www.iucnredlist.org/species/41777/103415399
[2] ALHO, C. J. R. (2008). *Biodiversidade do Pantanal*. Editora UNIDERP.
[3] EMBRAPA PANTANAL. (2010). *Mamíferos do Pantanal*. Embrapa Pantanal. Disponível em: https://www.embrapa.br/pantanal/publicacoes
[4] SOS PANTANAL. (2024). *Fauna do Pantanal*. SOS Pantanal. Disponível em: https://sospantanal.org.br/fauna-do-pantanal/
[5] OLIVEIRA, T. G. de; CAMPOS, C. B. de. (2010). *Guia de Campo dos Mamíferos do Pantanal*. Instituto Onça-Pintada.
[6] ICMBIO. (2018). *Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção*. ICMBio. Disponível em: https://www.icmbio.gov.br








